Betão cobra efetividade nas ações da Vale e do Estado na barragem de Barão de Cocais

    Para deputado situação é grave e a discussão da reestatização da Vale deve ser priorizada

    Depressão, profundo desespero, além do medo de perder seus negócios ou até nunca mais retornar à sua casa. Esses foram alguns dos relatos feitos pelos moradores de Barão de Cocais ao deputado Betão (PT), que na tarde dessa terça-feira (04/06), visitou o município e as comunidades próximas à barragem  Sul Superior, da mina de Gongo Soco. O objetivo da visita, realizada junto com os deputados Celinho da Comissão do Trabalho, Leninha e Andréia de Jesus, da comissão de Direitos Humanos, foi de apurar possíveis violações dos direitos praticados pela Vale em relação aos atingidos diretos e indiretos pela barragem.

    “É um verdadeiro problema o que nós vivenciamos aqui em Barão de Cocais. Algumas pessoas com graves problemas de saúde mental em função dessa lama invisível, que é o medo constante do rompimento. E caso esse rompimento ocorra, ele pode atingir cerca de 6 mil pessoas. O que nós vimos também é a falta de apoio por parte do Estado e da Vale”, disse Betão.

    O deputado se mostrou ainda preocupado com a situação dos trabalhadores e dos moradores da região, que se encontram em situação vulnerável.  “Até o momento não foi feito um levantamento dos itens dos moradores, portanto fica difícil mensurar as perdas da população. Tomei conhecimento também de que alguns trabalhadores da Vale estão atuando aqui em situação de risco e por isso mais do que nunca é necessário discutirmos a reestatização da Vale. Porque como empresa pública ele tem como obrigação investir em segurança e no bem público. Como sabemos, após a privatização, a Vale passou a atender a outros interesses”, disse.

    Daniele Fernanda Souto conta que está revoltada com a falta de resposta e que aguarda um posicionamento das autoridades do Estado e da Vale. “Eu tenho 31 anos, e sou nascida e criada aqui. Do nada vieram com essa história e transformaram a nossa vida em um inferno. Tem gente fora de casa, gente morando em hotel e todo mundo sem resposta. Era tanto silêncio que a gente viu a vinda da Vale aqui como se a gente tivesse ganhado na loteria. Só que não e ainda estamos sem respostas”, disse emocionada.  

    Ao longo dos seus 72 anos de vida, a história de José Nereu Rodrigues, mais conhecido como Ziziu, se confunde com a da região. Natural da comunidade  de Cruz Peixoto, o motorista Ziziu é nascido e criado na região. “Só em Barão de Cocais eu estou há mais de 50 anos”, gosta de falar. Ele se orgulha em dizer que ajudou na construção da barragem da Mina, mas que hoje, quando olha para a região sente tristeza e angústia. “Foi uma falta de coração desse povo da Vale e também da defesa civil. Tiraram  gente de casa de madrugada, sem explicar nada, falando que a lama ia atingir a gente em poucas horas. Até agora graças a Deus não aconteceu nada, mas estamos todos aqui. Eu mesmo tenho um sítio perto de Socorro e não posso passar nem na porta”, lamenta.

    Comerciantes temem falência

    “Eu já não sei mais o que fazer. Vou fechar as portas e ir para onde?” Indaga a cabeleira Iriléia Machado Mendonça. Ela conta que antes fazia cerca de 25 cortes por dia, mas que após os rumores do rompimento da barragem “com sorte faço um”, reclama. Ela disse que tentou um diálogo com a associação comercial da cidade e também com a Vale, mas não teve respostas concretas. “Eu não quero promessas, eu quero respostas. Meu faturamento caiu 80% e ai, o que eu vou fazer?”, pergunta.

    Quem também está preocupada com a situação do comércio na região é a representante do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais, Rita de Castro Ferreira. Ela relata que nesta quarta-feira (05/06) é dia de pagamento, mas que os bancos, com medo do rompimento da barragem, saíram da cidade e disseram que não vão mais retornar. Além de desaquecer a economia local, que já visivelmente parada, a medida causará transtorno às cidades vizinhas. “Os bancos disseram que vão disponibilizar um ônibus para que os moradores fossem receber em Santa Bárbara, por exemplo, mas são cerca de 6 mil pessoas e você imagina o caos que isso causará em uma cidade em dia de pagamento”, pondera. Rita também relatou que além da questão financeira, há ainda uma preocupação com a transferência de alunos de uma escola infantil para uma universidade. “É caso de Direitos Humanos isso. Não tem como essa escola funcionar assim”, relatou à Betão pedindo providências.

    Moradores aguardam ações do Estado e da Vale

    Assessora Jurídica da Procuradoria da República de Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal, Raquel Portugal Nunes disse estar perplexa com tudo que viu e ouviu durante a visita. “Têm coisas que para a gente, ler, ver escrito é diferente do que vir, ver e vivenciar qual é a real situação de vocês”, disse o final da visita à comunidade. Raquel disse ainda que apesar da tragédia em Brumadinho e em Mariana, as instituições públicas tem se esforçado para dar uma resposta à sociedade. “Desde o rompimento da barragem de Fundão as instituições têm tentado fazer um trabalho integrado e isso é muito importante para dar agilidade às ações. Os relatos que eu vi e ouvi hoje são muito graves e precisamos mais do que nunca de providências como atendimento psicológico adequado aos moradores, exigir da Vale um Plano Emergencial para a população e para os trabalhadores que conforme denúncias feitas hoje estão em área de risco”, disse.

    Quem também reclamou a ausência de respostas da Vale e do Estado de Minas Gerais foi o presidente da Câmara Municipal de Barão de Cocais, João Batista Pereira. Ele conta que até o momento a empresa não apresentou um plano emergencial aos moradores e que não tem recebido o devido suporte do governo. “Cadê o governador? Dizem que vem essas semana. A Vale a gente viu que veio e não fez nada. Hoje vocês estão vendo de perto o tamanho do prejuízo e o sentimento das famílias que estão à margem. Até agora não foi feito nada e a nossa preocupação é também trabalhar o psicológico dessas pessoas”, finaliza.

    Betão, juntamente com os deputados presentes, vai apresentar requerimentos cobrando medidas do Governo de Minas Gerais e da Vale, com objetivo de evitar novos danos. No próximo dia 28 de junho a Assembleia Legislativa de Minas Gerais irá realizar audiência pública para discutir a situação.

    Entenda o problema

    Apesar de a Vale afirmar que a mina de Gongo Soco está desativada desde o ano de 2016, hoje o local está com dois problemas: a movimentação no talude norte, na cava da mina e a na barragem sul superior. Essa já se encontra no nível 3, último nível de segurança. A Agência Nacional de Mineração informou que a velocidade de movimentação do talude é de em média, 42 centímetros por dia.

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