Deputado Estadual Betão (PT) visita barragem em Brumadinho; tragédia expõe a fragilidade dos trabalhadores junto à atual legislação trabalhista do setor

  Com as perdas humanas e ambientais, Betão chamou atenção para os riscos sofridos pelos trabalhadores do setor e a necessidade de reestatização da Vale

“Uma tragédia humana que envolve a morte do maior número de trabalhadores da história do país”,  avaliou o deputado estadual eleito, Betão (PT), após visita feita à barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, nessa quinta-feira (31/01) . O deputado eleito percorreu o local afetado e conversou com moradores e representantes de movimento sociais presentes no distrito. Até o momento, já foram contabilizadas 110 mortes e  238 desaparecidos, em sua maioria, trabalhadores da Vale, conforme ultimo balanço divulgado pela Defesa Civil de Minas Gerais.

Betão avalia que além dos prejuízos humanos, danos físicos e ambientais causados pelo rompimento da barragem em Brumadinho, a preocupação agora é também com a situação dos milhares de trabalhadores, muitos deles terceirizados, que hoje atuam nas cerca de 450 barragens de Minas Gerais (conforme levantamento da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais). “É uma situação muito pior do que passa na televisão, porque além de crime ambiental é um crime contra a classe trabalhadora, por que as pessoas que morreram ou que estão desaparecidas, em sua maioria, são trabalhadores da Vale, desrespeitados na sua condição de trabalho”, reforçou.

A tragédia é considerada o maior acidente de trabalho da história do Brasil, com o maior número de mortes do século 21 em todo o mundo, segundo divulgado pela BBC News Brasil. Além da falta de fiscalização quanto a segurança, outro tema também chamou atenção do deputado; a garantia dos direitos básicos, flexibilizados pela reforma trabalhista aprovada pelo governo Temer. “Não da mais para que empresas que exploram o minério de ferro neste país fiquem nas mãos de empresas privadas, praticando ações criminosas como essas e também sacrificando o direto dos trabalhadores”, acredita o deputado.

Natural de Juiz de Fora, Betão relembrou que a luta contra a perda de direitos básicos começou em 1997, durante o processo de privatização da Vale do Rio Doce. “Eu e outros companheiros estivemos no Rio de Janeiro em 1997 na luta contra a privatização da Vale do Rio Doce. Foram três ou quatro tentativas, mas a Vale foi entregue a preço de banana para o capital especulativo e operacional. São esses investidores que querem ter cada vez mais lucros, e é por isso que nos estamos lançando a palavra de ordem que tem que ser discutida por todas as entidade que é a re-estatização da Vale”, relembrou.

Em um de seus pronunciamentos, a Vale informou que fará uma doação às famílias de R$100 mil por ente falecido, o que difere da indenização que a empresa fará aos envolvidos. O anuncio preocupou ainda mais o deputado e levantou alerta sobre um trecho do texto da atual legislação trabalhista que impõe limitações ao valor a ser pleiteado pelo trabalhador, estabelecendo um teto para alguns pedidos de indenização. Pela atual legislação, ofensas graves cometidas por empregadores devem ser de no máximo 50 vezes o último salário.

Durante ato contra a Vale, realizado nesta quinta-feira na Praça da Liberdade, o secretário-geral, da Central Única dos Trabalhadores em Minas Gerais, Jairo Nogueira, afirmou que este é o momento para que todas as esferas da sociedade, dentre elas governos estaduais, federais, população e movimentos sociais, se unam em busca de respostas e ações concretas em prol da melhoria e regulamentação do setor de mineração do Estado. “Nós estamos pedindo com urgência uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a mineração em Minas Gerais e no Brasil, para a gente ter uma real noção do que está acontecendo, porque hoje o setor é  uma caixa preta. Nós não tivemos um bom retorno com o caso de Marina e nós não queremos que isso se repita em Brumadinho, por isso vamos também fazer uma ação popular, vamos também provocar o Ministério Público, os governos federal e estadual para desenvolver medidas para que as pessoas entendam os prejuízos que a privatização causou ao setor”, afirma.

Vidas cruzadas pela tragédia

Presente no Córrego do Feijão desde o ultimo dia 25 de janeiro, a integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens, Letícia de Oliveira, tenta ser uma ponte entre as famílias afetadas e os representantes da Vale e demais entidades do Estado. No entanto, ela relata que até agora não consegue explicar ao certo o que aconteceu, tendo em vista que toda a comunidade já havia passado por um treinamento contra catástrofes como essa.   “Os moradores da região nos contaram que tinha mais de seis anos que eles buscavam uma relação com a Vale para mexer na barragem, mostrar se a barragem tinha segurança ou não, e que a relação era sempre essa angustia. Houve um treinamento e a comunidade do Córrego do Feijão foi a que mais marcou presença, com mais de 80% da população local presente no treinamento de emergência, mas aí a sirene tinha que ter tocado e não tocou. Outra duvida é que alguns pontos que eram de encontro de salvamento foram destruídos pela lama também, ou seja, houve também esse erro de previsão da empresa de onde a lama passaria e o acionamento da sirene”, relata afirmando que permanecerá no local nos próximos dias.

Quando o telefone de Guilherme Otavio Diniz tocou na noite do ultimo sábado, ele relata que sentiu um mix de tristeza e alívio. O corpo sobrinho, Leonardo Alves Diniz (33), funcionário da Vale há 10 anos havia sido encontrado. “Infelizmente ele estava naquela reunião que ocorreu no escritório exatamente no horário que houve o rompimento da barragem. Nós ainda tivemos o ‘luxo’ de achar o corpo porque ele estava no escritório, e a sede boiou após o desastre.  Ele conta que o sobrinho, que entrou na empresa como tecnólogo, estava estudando para sair “o mais rápido de lá. Guilherme relata ainda que uma semana antes a mãe de Leonardo havia pedido que ele deixasse o mais rápido possível a empresa.

Na ponta da tragédia, mesmo com a perda de 16 amigos, Julimar Souza, morador do Córrego do Feijão há 25 anos descia a rua com muitos alimentos doados para entregar a uma parente a poucas quadras da sua casa. “Não cheguei a perder parentes mas perdi 16 amigos, todos trabalhadores da Vale e de uma pousada aqui perto. Aqui é pequeno, todo mundo se conhece,  nesse portão verde mesmo (apontou), eu perdi um colega meu que jogava bola comigo”, relatou. O morador, contou ainda que no dia que coloram a sirene ele desconfiou que uma hora essa tragédia pudesse acontecer, “mas ai a sirene não tocou e nós ficamos aqui como bobo”, relatou com simplicidade.

Também em nota, a Vale afirmou que irá descomissionar todas as barragens como a do Córrego do Feijão, decisão que segundo a empresa já havia sido tomada desde 2016, logo após o acidente da Samarco. “Todas as barragens a montante estavam estáveis e sendo descomissionadas em ritmo adequado. Até o final de 2018, de um total de 19 barragens, nove já haviam sido descomissionadas, restando 10. Após o evento de Brumadinho, a Vale decidiu acelerar esse processo. Para isso, a empresa vai parar operações próximas a essas estruturas para dar maior velocidade ao descomissionamento”, concluiu o comunicado.


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