Entrevista com Luiz Eduardo Rodrigues Greenhalgh, advogado e amigo de Lula

“Cada vez mais somos Lula. Nunca fomos tanto Lula e suas idéias e por isso lutamos por sua liberdade. Acreditamos na sua inocência”

A data é: 7 de abril de 2018. O Brasil parava para ver uma das cenas mais triste para a democracia do país: a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um ano depois, Luiz Eduardo Rodrigues Greenhalgh, um dos advogados de Lula, dirigente do Partido dos Trabalhadores e seu amigo pessoal, relembra os momentos que antecederam a prisão e reforça cada vez mais somos Lula, nunca fomos tanto Lula e suas idéias, por isso lutamos por sua liberdade. Acreditamos na sua inocência”.

Como foram os dias e as horas antes de a prisão do ex-presidente Lula se concretizar? Nos bastidores, como ele estava?

Foi um momento de muita tristeza e emoção. Acompanhei a prisão do presidente Lula junto com ele, dentro do Sindicato dos Metalúrgicos, no ABC paulista. Passei a sexta-feira, sábado e fiquei com ele até o final, quando ele foi levado pela Polícia Federal. Aliás eu e milhares de pessoas, o que eu calculo que tenham sido cerca de 5 mil pessoas que estavam em torno do sindicato naquele dia 7 de abril de 2018.

Assim que recebeu a notificação, ele foi para o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, que é o berço do seu nascimento sindical e político, e ficou lá com seus companheiros e milhares de pessoas. Lá ele recebeu muita solidariedade, falou com seus filhos, amigos e advogados. Foram momentos de muita emoção, quando ele apareceu na janela acenou para muitas pessoas, reconfortando-as. No dia seguinte aconteceu um ato ecumênico com caminhão de som na esquina do sindicato onde várias pessoas falaram e ele fez um discurso histórico, antológico em que ele disse que seria preso, mas que:

o povo brasileiro a partir de agora seria seus pés, sua voz, seus ouvidos e que ele deixava de ser uma pessoa física, para ser um conjunto de idéias, um projeto de idéias. Projeto político de igualdade, de liberdade e de justiça social. Não importava que o corpo dele estivesse preso, o que valia era que as idéias poderiam ser levadas aos quatro cantos do Brasil e do mundo”

Como Lula está hoje e como ele tem se motivado?

O Lula tem me surpreendido muito ultimamente, e olha que eu o conheço há muitos anos. Eu fui seu advogado na época das greves na Lei de Segurança Nacional, e o Lula daquela época era jovem, mas o de hoje é mais consistente, mais sedimentado e mais consciente do papel histórico que ele exerce sobre a política do Brasil, América Latina e em outras partes do mundo.  O Lula de hoje é uma pessoa madura e há um ano atrás, lá em São Bernardo, ele tranquilizava as pessoas. Ele sabia o que aconteceria com ele, o que tinha que fazer e mesmo assim tranquilizava, acalmava e orientava as pessoas. Ele é um homem impressionante.

É impressionante também a resistência, convicção e o sentimento que ele tem de que está sendo investigado injustamente, da exigência de que ele faz para que sejam apresentadas provas contra ele, o que nós sabemos que não há. Você veja, ele está há um ano na cadeia, se revirou a vida dele, da família dele, fizeram busca e apreensão na casa dele, na casa dos filhos, netos, no Instituto Lula e nada. Na casa dele chegaram a olhar dentro da geladeira, do forno, no teto e não acharam nada, absolutamente nada. Investigaram o ano inteiro para ver se achava uma conta no exterior, alguma coisa de ilegal mas não acharam nada.

A que ele atribui a prisão?

O Lula é refém dos golpistas que tiraram a Dilma e que colocaram Temer e que agora puseram Bolsonaro. A prisão do Lula foi mantida por Sérgio Moro, esse mesmo que o Lula dizia que estava fazendo política e que ele (Moro) falava que não, que amava a toga, que era um magistrado. Falava que ele (Moro) olhava o processo e que analisava as provas, mas quando teve a vitória do Bolsonaro foi o primeiro a largar a toga, largar os processos e correr para o Ministério da Justiça. Ele ajudou Bolsonaro a ser presidente, mantendo Lula preso.

Como foi seu primeiro encontro com o Lula após a prisão?

Entrei, sentei com ele e o abracei. Foi um momento muito emocionante. E eu perguntei a ele o que ele queria que eu fizesse.

Esse assunto do Lula tem me constrangido e me deixado muito reflexivo. Tenho sofrido muito também. Naquele final de semana que Lula foi preso ele me mandou um bilhete, me disse que queria que eu fosse lá. Quando eu chego em Curitiba me deparo com uma situação surreal. Você chega na porta da Polícia Federal, vê um prédio novo, moderno, você entrega sua carteira de advogado para o cidadão inscrever você e aí você olha para atrás e tem uma placa imensa escrita:

Este prédio foi inaugurado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Você começa a sentir um clima de surrealismo. Depois você sobe, vai à cela dele e uma pessoa bate na porta e fala: ‘presidente, visita para o senhor. É outro fato surreal, porque a pessoa está presa em um prédio inaugurado em seu governo e os carcereiros o tratam como senhor presidente.

Como é a sua atuação junto ao presidente Lula hoje?

Eu integro uma equipe de advogados. Tenho a qualidade de ser advogado, um dos dirigentes do PT e também amigo. Tanto que eu me ofereci para cuidar dos filhos dele porque quase todos eu acompanhei desde o nascimento, -alguns até me chamam de tio-, mas o Lula não quis. Ele me disse: “eu quero que você me ajude na leitura, na interpretação política dos processos”,  e é isso que eu tenho feito há um ano.

Como foi a saída dele para acompanhar o velório do neto, Arthur?

Foi triste e emocionante o dia que ele perdeu o neto Arthur. Nós fizemos um esforço enorme para que ele saísse da cadeia e viesse ao velório. Eu fui a São Bernardo e vi de perto a chegada dele, uma pessoa transtornada com o que estava acontecendo e muito sofrida. Foi sofrido porque o Arthur foi um neto que morou com ele e com a dona Marisa, que acompanhou ele na época da doença e era um neto muito querido. A gente ali vendo o sofrimento da família e chegada dele, e quando ele viu o Arthur ele começou a falar: Arthur, você agora vai encontrar sua avó Marisa, ela está te esperando e vai ficar com você e depois a gente vai se encontrar também. Eu prometo a você que quando a gente se encontrar de novo eu vou mostrar meu diploma de inocente. É a minha absolvição desses processos e dessa perseguição. Você foi muito atacado, você sofreu bulling por ser meu neto e eu vou te mostrar que eu sou inocente.

Muita emoção e no contraste dessa emoção, sofrimento, choro e angustia, lá fora do cemitério o Brasil clamando por Lula em pleno carnava.

Como tem sido as visitas a ele? Como ele tem se motivado?

Toda semana, segunda ou terça-feira, eu tenho ido visitá-lo e ele está bastante calmo. Na última vez almoçamos juntos na cela, conversamos e não tocamos no assunto de processos, de Supremo, de PT, só passamos o dia lembrando de coisas, rindo e chorando. O que eu vejo é que hoje ele acompanha tudo, é sintonizado com tudo que está acontecendo aqui fora.

Eu vejo o Lula e penso que ele é uma pessoa de uma estatura de um Mandela. Por isso eu acho que ele merecia esse Prêmio Nobel da Paz. Pelo que ele fez e faz pelo Brasil, e também pelo que ele está passando. Esse prêmio pode ser uma sinalização para as democracias da América Latina nesse momento em que há um vento reacionário, conservador e muito próximo ao fascismo não só no Brasil, mas na América Latina e na Europa. Há um avanço do conservadorismo e um prêmio concedido à Lula seria o devido reconhecimento do seu papel na história do Brasil e do mundo.

Qual é a mensagem mais forte que Lula passa hoje a todos?

A mensagem que ele passa é a da busca pela sua inocência, porque ele sabe que foi condenado sem nenhuma prova. Sabe que é inocente e que está passando por uma provação. Mais do que nunca, ele acredita que não existem derrotas definitivas para o povo e para a verdade.

Luiz Eduardo Rodrigues Greenhalgh nasceu em 11 de abril de 1948. É advogado formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e membro fundador do Partido dos Trabalhadores (PT).

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