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Entrevista: Mobilizações no Brasil pela Educação e contra a Reforma da Previdência

Por La Verdad (Espanha) – Entrevista com Betão

No último dia 15, em aproximadamente 200 cidades do Brasil, em torno de um milhão e meio de pessoas saíram às ruas num ato histórico, que vem sendo considerado o primeiro grande ato popular de resistência às políticas neoliberais do presidente Jair Bolsonaro. Segundo a UNE (União Nacional dos Estudantes) o número de pessoas chegou a 250.000 no Rio de Janeiro, 200.000 em São Paulo, e a uma média de 100.000 em outras grandes capitais do país.

Embora a massiva presença de estudantes e sua ênfase no tema da reversão dos cortes na Educação tenham chamado a atenção da grande mídia, tanto em termos nacionais quanto internacionais, é importante nos atentarmos para o aspecto múltiplo desta grande mobilização popular. O crescente descontentamento do povo em relação ao governo, assim como o agravamento da crise econômica e do desemprego tiveram uma grande contribuição, tanto na adesão dos manifestantes à causa dos estudantes, quanto na grande repercussão e alcance dos protestos em todo o país. Às pautas relativas aos cortes na Educação e à proposta do governo para a Reforma da previdência somaram-se, também, a indignação da população em relação aos decretos do presidente visando alterações nas legislações relativas ao porte de armas no Brasil. Em muitos cartazes se via a frase “Menos Armas, Mais Livros”, que tem se tornado o grande slogan da luta brasileira pela Educação e contra a política de tendência genocida, defendida pelo então presidente da República. Os estudantes e trabalhadores também manifestaram sua indignação em relação à guerra cultural implantada pelo governo no campo da Educação, o que têm resultado em constantes perseguições a professores, acusados de serem doutrinadores marxistas.

Em uma conversa com o Deputado Estadual Betão, do Partido dos trabalhadores (PT) de Minas Gerais, ele enfatizou outros aspectos importantes deste grande protesto nacional, como, por exemplo, a união das pautas trabalhistas e estudantis. Neste sentido, o deputado chama a atenção para o fato de que: “a Jornada que aconteceu no dia 15 de maio foi convocada, inicialmente, pela confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), contra a reforma previdenciária, uma vez que os professores, assim como os trabalhadores rurais, serão as categorias mais afetadas pela proposta do governo”.

Com o anúncio do bloqueio nos recursos das Universidades, feito pelo ministro da Educação Abraham Weintraub, a UNE (União Nacional dos Estudantes) convocou todos os estudantes do país a se unirem aos protestos. A grande adesão por parte dos jovens de todo o Brasil acabou transformando a reversão dos cortes na educação na pauta prioritária das manifestações.

Indagado sobre os elementos que motivaram o governo a implementar os cortes orçamentários na educação Betão, embora não descarte a existência de uma guerra cultural entre governo e educação, nos alerta para o fato de que a grande batalha de fundo ocorre, primordialmente, no campo econômico. Tal dado se faz visível se atentarmos para a própria trajetória profissional do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, escolhido pelo governo Bolsonaro. Graduado em economia pela Universidade de São Paulo, o Ministro nunca se desviou dos setores ligados à área financeira. De acordo com Betão, isto justificaria sua linha de ação: “estamos diante de um governo que elegeu a educação, elegeu os estudantes e professores como inimigos. Um governo que quer acabar, por exemplo, com os cursos de Ciências Humanas, que segundo seu entendimento, não resulta em retorno financeiro para o país. Ou seja, é uma linha de pensamento que nos remonta a um período de obscurantismo, que não podemos aceitar!”.

De acordo com o deputado, é impossível desvincular o bloqueio de recursos destinados à Educação, do tema da Reforma da Previdência. Nesse sentido ele afirma que:

“Os corte na Educação, feitos por Bolsonaro, estão estritamente vinculados à proposta de Reforma da Previdência e fazem parte de uma estratégia para atender o mercado financeiro, para atender os donos do dinheiro! Na reforma proposta, o governo quer substituir uma previdência pública, solidária e de repartição entre gerações, por um modelo de capitalização individual, onde os patrões não terão mais a necessidade de pagar a sua parte sobre o salário do trabalhador. Este último, por sua vez, deverá fazer uma contribuição solitária para uma conta individual como se fosse uma poupança. Neste sistema o dinheiro deverá ser gerido por bancos privados e aplicado nas bolsas de valores. Mas o mais grave é que o Ministro da Educação faz uma espécie de chantagem, dizendo que se a Reforma da Previdência for aprovada ele terá condições de reverter os cortes na Educação”.

Em sua opinião, o que estaria por trás dos cortes no orçamento das Universidades?

O foco é, sobretudo, de cunho econômico! O principal objetivo é conseguir a aprovação da Reforma da Previdência! Mas tenho plena certeza de que os ataques à Universidade também estão inseridos no processo de pilhagem e privatizações que está em curso no Brasil. O que está sendo feito é uma de tentativa de destruição das Universidades públicas, de destruição da ciência, da tecnologia e das pesquisas que são feitas no Brasil, para favorecer os grandes grupos privados de ensino que estão se formando aqui neste país e que tem crescido a olhos vistos a cada ano. Ou seja, para atender ao mercado financeiro, há uma combinação entre a Reforma da Previdência e as privatizações das empresas públicas, incluso as Universidades Federais.

Como o senhor avalia a significativa participação dos jovens nas manifestações de 15 de maio e quais são os possíveis desdobramentos destes protestos?

Certamente esta participação dos jovens pode ser considera um marco, uma virada no processo que estamos vivendo aqui no Brasil, que vai culminar também numa nova manifestação que vai ocorrer no dia 30 de maio em todo o Brasil convocado pela UNE (União Nacional dos Estudantes) e também no dia 14 de Junho, numa greve geral que está sendo convocada por todas as centrais sindicais. Então, vamos ter um período de bastante turbulência com um grande protagonismo da juventude, bem como dos trabalhadores e das trabalhadoras.

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