Moradores da Serra do Brigadeiro e região dizem não à tentativa de avanço da mineração na Zona da Mata

Na audiência Betão chamou atenção para a importância de preservar os recursos ambientais da região e também discutir a reestatização da Vale. Dossiê apresentado ao deputado aponta possíveis irregularidades no âmbito dos direitos humanos envolvendo a população local.

O auditório lotado já sinalizava a importância da discussão que a Comissão dos Direitos Humanos promoveria nesta quarta-feira: a ameaça da invasão da atividade da mineração, em especial pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do grupo Votorantim, na Serra do Brigadeiro, na Zona da Mata – MG. 

Em peso, mais de 100 trabalhadores rurais, moradores de cerca de 12 cidades da Zona da Mata, além de movimentos sociais, moradores da região e parlamentares, discutiram os impactos socioeconômicos e ambientais do avanço da mineração no entorno do Parque Estadual.

“Eles sempre alegam que a mineração vai trazer desenvolvimento econômico, mas o que a gente vê é que as empresas de mineração trazem devastação e morte, como Mariana e Brumadinho. Constroem barragens feitas para romper e matar trabalhadores. Gostaria de falar para todos vocês que nós estamos juntos nessa luta e sempre que precisar nosso mandato está à disposição”, disse Betão convidando as pessoas para um ato que haverá em Brumadinho no próximo dia 25 de outubro, a partir das 11h30, pela soberania nacional e reestatização da Vale.

Segundo informações apresentadas na audiência, desde a década de 1950 a região estaria sendo cobiçada por mineradoras, em especial pela CBA. A Companhia teria 27 requerimentos em aberto solicitando a mineração na zona de amortecimento do parque e em áreas adjacentes. O temor da comunidade é que, caso seja aprovado, a mineração vai invadir três áreas de proteção ambiental (APAs) municipais: Pico do Itajuru (Muriaé), Serra das Aranhas (Rosário de Limeira) e Rio Preto (São Sebastião da Vargem Alegre).

Na luta contra a expansão, os trabalhadores da região, representados por Isaías Clóvis de Freitas, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miradouro, pediram socorro contra a tentativa de inserção da CBA na região.

“Desde 2003 o movimento sindical despertou para a importância da luta e para a necessidade da realização de um trabalho diferenciado contra a mineração. A agricultura familiar e os pequenos produtores são as nossas “empresas”, as nossas riquezas. Se a mineração avançar, as cerca de 50 famílias que hoje vivem do café e do leite sairão de lá. Precisamos de ajuda”, explicou. 

O socorro também foi solicitado pela pequena Claudiane Maria, moradora da cidade de Belisário. Com apenas 11 anos, ela fez um apelo: “eu quero preservar o meu futuro, o dos meus amigos e da minha família. As mineradoras acham que podem comprar o povo de Belisário, mas não vai, porque a agricultura familiar é a coisa mais importante. É a nossa maior riqueza. De todo jeito, a mineração é a morte, porque se a barragem estourar ela mata as pessoas. Se não, ela vai avançar e vai acabar com a água e com a nossa agricultura familiar”, contou emocionada.

Desde que os movimentos se organizaram contra a expansão da atividade, a coordenadora estadual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Gilsilene Maria Mendes, alegou que as ameaças não param.

“A nossa comissão foi montada no começo de 2003 e na época a gente não sabia a importância da luta que a gente iria travar contra a mineração. Sei de inúmeras ameaças contra os líderes comunitários, para que a gente não lute contra a mineração, mas não vamos parar. A nossa luta é pela vida, pelo meio ambiente, pela produção de água, pelos rios, pela agricultura familiar e pela cultura do povo da região. A mineração chega e não respeita nem a vida nem o povo”, disse Gilsilene, lembrando que na Zona da Mata há o polo agroecológico em defesa da alimentação saudável e a agricultura familiar na região.

“Mineração NÃO”, fez questão de gritar Jean Carlos Martins Silva, integrante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). Jean também apresentou para Betão um dossiê com todas as irregularidades que a CBA tenta praticar na região e os riscos de violação dos direitos humanos dos moradores da região. “Mineração NÃO. Por isso Betão, entrego a você esse dossiê para que a comissão possa também se informar sobre os riscos que a região, com mais de 12 cidades do entorno, passam com a ameaça da mineração”, disse Jean. 

Agricultura familiar e o potencial turístico são o forte da região

“A mineração é uma amputação ambiental para uma região onde 60% da população é rural e depende da agricultura familiar”, alertou Lucas Magno, geógrafo e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste – IF Sudeste, Campus Muriaé, em Minas Gerais.

Além da diversidade da produção no campo ele chamou atenção para a metodologia falha de construção de barragens e como a mineração é predatória para o meio ambiente e para os moradores. “Em Pirapanema temos uma de alteamento, como a de Brumadinho, inutilizada em 2007. A de Maraí, já se rompeu no passado e temos que lembrar que nos formatos que forma construídas as barragens irão se romper”, denunciou Lucas.

Leonardo Pereira Rezende, advogado das comunidades na Serra do Brigadeiro alegou que há sim potencial econômico ligado à região e que com a mineração toda essa riqueza será desmobilizada. “Não podemos achar que o único investimento da região é a mineração. Temos alternativas econômicas como o turismo, a gastronomia e a agricultura familiar”, reforçou ele.

“Essa luta não pode ser da região. É uma luta de todos”, ao lembrar do crime de Brumadinho e as quase 300 mortes , disse a deputada Beatriz Cerqueira (PT), autora do requerimento para realização da audiência. A presidente da Comissão dos Direitos Humanos, deputada Leninha (PT), lembrou que a tentativa de avanço da mineração é também um problema da sua região, norte de Minas, mas que se os deputados se unirem haverá um enfrentamento na Assembleia contra essas propostas de invasão da mineração em Minas.

“Junto com o Betão, Bia e outros deputados, vamos tomar todas as providências contra essa atitude predatória. Sou do norte de Minas, sei da diversidade econômica da região, e lá também, no Vale das Cancelas, tivemos o mesmo problema. Por isso, estarei com vocês no enfrentamento dessa causa”, finalizou Leninha.

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