Série Contra as Privatizações: entrevista com Thiago Rodarte, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE)

A Codemig é uma empresa que além de ser detentora de 90% das jazidas de nióbio, mineral estratégico em todo mundo, praticamente não tem despesas administrativas. Os dados são públicos e mostram que a receita líquida de impostos do nióbio foi de R$934 milhões e as despesas diversas (fora pessoal) foram de R$14 milhões. Ou seja, superavitária.

Diante desse cenário e do fato de que Minas Gerais precisa da Companhia de Desenvolvimento Econômico para atração e desenvolvimento da economia em Minas Gerais, por quê privatizá-la?

Quem explica para a gente os motivos para não vender a Codemig é Thiago Rodarte, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e adianta “O estado de bem-estar social, que vai ser capaz de melhorar e dar qualidade de vida para as pessoas não virá simplesmente pelas mãos do mercado”.

Por que pensar em privatizar a Codemig em um momento em que Minas Gerais precisa muito promover o desenvolvimento econômico?

Eu considero que não é o ideal a privatização da Codemig, principalmente porque a Companhia, que já atua em Minas Gerais com outros parceiros do setor privado, é responsável pela exploração da mina de nióbio em Araxá. O nióbio é um minério muito raro e estratégico para o mundo e o Brasil é dono de 90% das reservas internacionais. 

Este minério tem aplicações importantes na indústria e, por isso, seria interessante que o Estado mantivesse o controle da produção dessa matéria prima, como produto de fomento da nossa indústria.

Privatizar então seria entregar uma riqueza mundial ao capital privado?

Sim e se você entregar toda essa riqueza para o capital privado, ele vai tentar obter o maior lucro possível. Agora se o Estado mantiver o controle da Codemig, ele pode usar essa vantagem para poder trazer os ganhos da exploração desse produto para beneficiar Minas Gerais e o povo mineiro.

Qual o papel real da Codemig e como ela, não privatizada, pode fomentar o desenvolvimento de Minas Gerais?

A Codemig é muito importante, principalmente porque ela é responsável, junto com a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, por promover políticas de desenvolvimento da economia e atração de investimentos para o Estado.

Privatizar é uma política dentro de uma linha ideológica do governo, que se mostra liberal, que acredita que o mercado sozinho vai promover o desenvolvimento em Minas Gerais.

O que a gente sabe é que, em Minas Gerais e no Brasil isso não acontece né?! Quando o estado intervém com políticas públicas, ou por meio de empresas como a Codemig, você, de fato, consegue fomentar mais o desenvolvimento da economia.

O que a população deve fazer contra o processo de privatização de estatais como a Codemig?

A população precisa se conscientizar e se informar para entender que o poder público não pode ser visto como um demônio, como algo do mal.

Às vezes, as pessoas fazem uma relação errada entre as estatais e o processo de corrupção, (sem querer entrar neste mérito) atribuindo de forma errada o papel do poder público, frisando que o Estado não serve para fazer mais nada.

Isso não é verdade. Em algumas décadas, quando o Estado interveio mais na economia, houve sim processo de grande crescimento econômico. Então as pessoas precisam se conscientizar e se informar sobre a importância das estatais para o Brasil.

Acredito também que agora é hora de as pessoas começarem a participar mais dos focos de resistência, contra esse desmonte do Estado, do estado de bem-estar social e dessa cultura de “estado empresário”.

Até porque esse bem-estar social, que vai ser capaz de melhorar e dar qualidade de vida para as pessoas não virá simplesmente pelas mãos do mercado.

Reestatizar então é uma saída para o caso de privatizações que não deram certo?

Foi constatado em vários países que iniciaram esse processo de venda das estatais, alguns há mais tempo que o Brasil, como por exemplo a Inglaterra e a Alemanha, que os serviços estavam sendo ofertados de maneira ineficiente e também ficaram mais caros.

E por isso, esses governos passaram a reestatizar certas empresas dos setores estratégicos. Infelizmente o Brasil voltou com um projeto de privatização, que começou a acontecer na década de 90, parou durante um tempo e agora retorna nos governos estadual e federal.

Não podemos chegar ao ponto como de outros países que privatizaram e depois de um tempo notaram que o processo foi ruim. Se a privatização acontecer, isso vai demorar algum tempo, então o ideal é que não se permita a privatização. Temos que usar a experiência internacional e ver o que não deu certo para não deixar acontecer isso no Brasil.

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