Série contra as privatizações – entrevista Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais, diretor de comunicação Felipe Pinheiro

Além da demissão de milhares de trabalhadores em todo país, a privatização da Petrobras vai causar o aumento do preço final da gasolina, do diesel e do botijão de gás de cozinha. Será o caos para os brasileiros, principalmente para os mais pobres.

Em Minas Gerais, há a possibilidade de se vender a Refinaria Gabriel Passos, a (Regap), maior unidade do Estado. Em todo país há também o risco de que refinarias sejam fechadas  só para importar combustíveis, o que reduziria a quase zero os impostos arrecadados nos estados e pioraria ainda mais a situação de municípios, que dependem da arrecadação de impostos do setor.

Quem explica os prejuízos e como a venda de Petrobras é a perda da soberania do país “porque afinal ela é um bem do povo brasileiro”, é o diretor de comunicação do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais, Felipe Pinheiro. Para ele é hora de lutarmos contra o desmonte da Petrobras. 

Por que insistem tanto em privatizar a Petrobras? A privatização é um cenário real?

O panorama atual é que o processo de privatização da Petrobras está acontecendo, mas de forma diferente das outras estatais, como por exemplo, a Eletrobrás. No caso da Eletrobrás será enviado um Projeto de Lei ao Supremo Tribunal Federal para aprovar a privatização.

Já na Petrobras, ela está sendo feita de forma “fatiada”, com a venda de algumas unidades e alguns setores da estatal. Em Minas, nós temos um exemplo de privatização feita de forma fatiada, que é a refinaria Gabriel Passos, localizada em Betim.

A partir do anúncio da venda desta unidade a expectativa do governo é de que em cerca de um ano as empresas interessadas busquem a Petrobras e façam uma proposta de venda. É como se você estivesse vendendo um imóvel, um carro, um patrimônio, aí você coloca um anúncio no jornal, ou na internet e aparece o comprador e você vende.

Por que privatizar se a gente está falando de um setor estratégico? É uma operação lucrativa?

Não faz sentido algum vender a Petrobras, mas o governo usa algumas justificativas para vender. No caso da Petrobras ele alega que a empresa estaria quebrada e com dificuldades financeiras, o que não é verdade.

No passado, a Petrobras realmente passou por dificuldades financeiras, com aumento da dívida, mas o horizonte de orçamento que ela tem para receber é muito grande e vale lembrar que ela tem essa possibilidade de ganho de capital com o pré-sal e com as outras atividades econômicas. Ou seja, a Petrobras nunca deixou de ser lucrativa.

O que a gente vê claramente é que há uma disputa de narrativa junto à sociedade em relação a ideia de que a corrupção e a má gestão “acabaram” com a empresa, e que passar as atividades para a iniciativa privada “vai dar um jeito” em tudo. Não, isso não é verdade, e a gente sabe disso.

A gente sabe também que tem uma disputa ideológica por trás disso, que desde o início da operação lava-jato tem uma clara intenção de “queimar” a imagem da Petrobras.

Apesar disso tudo, apesar de todo esse vendaval midiático e político, ainda hoje a gente vê que nas pesquisas a população é contra a privatização da estatal.

Eles alegam que é uma questão de acabar com a corrupção, aumentar a eficiência e melhorar o desenvolvimento do país, mas sabemos que na história da indústria do petróleo no Brasil, quem foi a locomotiva, o carro-chefe dessa área de petróleo, gás e energia no Brasil foi a Petrobras, com investimento estatal em pesquisa.

Se privatizar os serviços vão piorar? O que pode acontecer?

Vários serão os prejuízos.  As refinarias são casos emblemáticos, porque as refinarias são onde as unidades da Petrobras transformam petróleo em derivados (gasolina, gás de cozinha e Diesel).

É importante lembrar que desde 1997, quando foi quebrado o monopólio do setor de combustíveis, mesmo assim a Petrobras continuou investindo maciçamente no setor, lembrando que quando eu digo Petrobras eu falo em Estado, em governo.

Outra coisa que é importante lembrar é que umas das maiores descobertas do setor foi o pré-sal, feito pela Petrobras depois de anos de investimentos, em pesquisa e tecnologia, inclusive investimento de alto risco que outras empresas internacionais não fariam.

Então esse discurso de que o capital privado vai resolver e que vai desenvolver a história do país, especialmente nesse setor energético e de petróleo gás, não é verdade porque quem construiu uma indústria gigante nessa área foi a Petrobras.

Além dos prejuízos com o encarecimento do valor dos combustíveis, o mais preocupante com a privatização é a perda da soberania. A Petrobras é do povo, o ideal é que a Petrobras atuasse nos setores de petróleo e gás visando melhorias para o povo brasileiro.

O que a gente está percebendo é que ela está saindo de uma série de setores que ela opera para focar somente no pré-sal e na exploração de petróleo, objetivo do atual governo.

Quais são os sinais do processo de privatização dados pelo atual governo?

 A privatização que está sendo feita dentro da Petrobras é um enxugamento, um desmonte de uma empresa que trabalha com toda a cadeia industrial de petróleo e gás, indo desde a exploração de petróleo no fundo do mar, passando pelo refino do petróleo e transformando em diesel, gasolina, gás de cozinha e indo até à distribuição. Hoje a Petrobras é também uma empresa integrada de energia, e o que eles querem é acabar com tudo isso.

Em Minas Gerais temos um caso específico que é a venda da refinaria Gabriel Passos. O objetivo desse governo é que 50% da capacidade de refino da Petrobras seja vendido. Ou seja, a Petrobras não será o principal ator no mercado brasileiro na produção de combustíveis e assim, vai entregar o setor ao mercado privado.

Aí podem acontecer uma série de coisas, e a primeira delas é o aumento abusivo do preço dos combustíveis, e é bom lembrar que esses foram os motivos da greve dos caminhoneiros, em 2018.

A Petrobras está seguindo uma política de preços que torna vantajosa a sua privatização.  A empresa que entrar no mercado de combustível, que hoje é majoritariamente da Petrobras, quer ter a certeza de que vai ter lucro. Ela quer ter lucro máximo em curto prazo e ainda ter a certeza de que o governo não vai controlar preço. E é isso que essa operação vai garantir, infelizmente.

A venda da Refinara Gabriel Passos causará grande impacto à economia de Minas Gerais?

 

Sim. Em Minas a refinaria Gabriel Passos abastece a maior parte do Estado. Quando criada, lá no governo militar, a maioria das refinarias foi pensada para abastecer as regiões. Com a privatização, você tira o monopólio de produção aqui do Estado e cria monopólios regionais privados. A empresa que comprar a refinaria Gabriel Passos já vai ter um mercado consolidado, uma infraestrutura logística já consolidada para ganhar dinheiro aqui em Minas Gerais.

Então, outras refinarias não vão competir com a refinaria daqui, porque não faz sentido uma refinaria lá do Nordeste abastecer aqui em Minas Gerais. Ela não vai precisar gastar dinheiro com a logística de transferir o combustível lá da região Nordeste para cá. Basicamente, a empresa que for comprar a refinaria, compra já o mercado pronto, e se ela quiser aumentar o preço, a população vai acabar tendo que comprar esse combustível.

E combustível não é banana, não é sapato, não é Televisão 4k, combustível é coisa que a gente precisa usar para sobreviver. Tanto que a gente  percebeu que combustíveis e seus derivados são coisas sérias, que o consumo de gás de cozinha teve redução e a solução de uma parcela da população foi voltar a usar fogão a lenha, álcool, e outras alternativas para continuar fazendo a sua comida. Mesmo assim a gente sabe que a maior parte da população vai continuar consumindo combustível, de um jeito ou de outro.

Além da perda da soberania, o aumento do preço dos combustíveis pode afetar ainda mais a vida dos brasileiros?

 

O tema dos combustíveis é um tema que pode causar um alvoroço social e nós vimos isso durante a greve dos caminhoneiros em 2018, uma verdadeira situação de caos para o país.

A gente acredita que o tema dos combustíveis é a melhor forma de a gente dialogar com a população sobre os possíveis impactos e os prejuízos da privatização da Petrobras.  O tema da Petrobras é um tema delicado, as pessoas não entendem porque quando fala Petrobras, elas tendem a imaginar a sede que fica no Rio de Janeiro.

Mas é importante falar que existe uma unidade aqui em Minas Gerais que é a refinaria Gabriel Passos, que oferece cerca de 2 mil empregos diretos e gera mais uma cadeia de empregos indiretos de serviços e impostos para o Estado e o município de Betim.

Hoje a refinaria Gabriel Passos é a principal fonte recolhedora de ICMS do Estado e ela também é a principal fonte de renda (por meio dos impostos) da cidade de Betim, onde ela está localizada. O nosso objetivo é conscientizar as pessoas da importância da refinaria e da Petrobras e mostrar que a gente está se organizando por meio de manifestações, panfletagem, audiências públicas na Assembleia Legislativa, mas nós temos que intensificar agora esse processo de conscientização sobre a importância da Petrobras.

Temos que mostrar o que pode acontecer com os preços dos combustíveis, para a arrecadação de impostos e para a geração de empregos, caso a privatização refinaria aconteça. O desafio é aumentar o diálogo com o povo e mostrar a importância da pauta para os petroleiros, trabalhadores da Petrobras, para os mineiros e a população como um todo.

A gente se mobilizando sozinho não vai dar em nada. A gente precisa convencer o parlamento, convencer os governos locais, convencer as pessoas da importância da Petrobras.  Queremos mostrar que é uma questão do dia a dia que está relacionada ao processo de privatização da Petrobras, como os preços do gás de cozinha, o diesel e a gasolina, e que se vender a Petrobras vai sim afetar e piorar vida dos brasileiros.

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