Pandemia muda relação entre professores e alunos e transforma aulas online em única alternativa

Falta de acesso à internet, de domínio da tecnologia e de equipamentos adequados são alguns dos problemas listados pelos professores e alunos; sindicatos já observam se profissionais trabalham mais que o normal

Há 20 anos como professor de Física, Vinícius Paiva, da rede particular de Juiz de Fora, nunca imaginou que uma pandemia o faria trocar o quadro negro pelo computador e o pincel pelo mouse. Ele é um dos milhares de professores da rede particular de Minas Gerais que, em função do Covid-19, estão ministrando aulas online.

Com cerca de 300 alunos, a palavra de ordem é adaptação: “eu ainda me viro bem. Tem colegas que eu sei que não dominam tanto a tecnologia, mas o mais importante é que a gente não tem deixado que as trocas com os alunos se percam”, disse brincando que agora virou Youtuber porque as aulas na escola onde trabalha, são ministradas de casa e ao vivo.

Vinícius relata que em uma das instituições onde trabalha, na Zona da Mata, há uma preocupação com a falta de nivelamento entre os professores que têm acesso à tecnologia e aos que não tem.  Por isso, a escola disponibilizou um espaço e uma equipe para auxiliar esses profissionais. Entretanto, ele admite que apesar de toda estrutura, o tempo para preparação dos conteúdos deve ser muito maior. “Ainda não dá para saber ao certo, né? Mas antes eu tinha o quadro como suporte para dar aulas e, hoje, eu levo mais tempo para preparar as aulas”, explica.

Atenta às dificuldades dos professores da rede particular, a diretora do Sindicato dos Professores de Juiz de Fora (Sinpro-JF), Maria Lucia Lacerda afirma que agora “o lema é a garantia do emprego e a estabilidade dos professores, para que nenhum prejuízo ocorra aos salários nem aos professores e profissionais da educação”, afirma.

Ela conta que apesar do pouco tempo, já tomou conhecimento de profissionais que não têm acesso à internet para trabalhar de forma remota e que não tem pleno domínio das aulas online. 

“Estamos atentos a todas as demandas para dar suporte a esses profissionais, principalmente os da educação infantil, que tem uma dificuldade maior em realizar as aulas online. Um ponto positivo é que temos uma linha de transmissão e comunicação com os professores e sabemos que algumas instituições estão dando conta de realizar as aulas”, esclarece lembrando que o Conselho Estadual de Educação validou as aulas online para a composição das 800 horas e a LBD, deixou de exigir os 200 dias letivos.

Em nota, o Conselho Estadual de Educação permitiu a concessão das aulas online, de acordo com uma série de normas previstas em decreto publicado no dia 21 de março.

“As atividades realizadas a distância podem contemplar até 20% (vinte por cento) da carga horária total, podendo incidir tanto na formação geral básica quanto, preferencialmente, nos itinerários formativos do currículo, desde que haja suporte tecnológico – digital ou não – e pedagógico apropriado, necessariamente com acompanhamento/coordenação de docente da unidade escolar, onde o estudante está matriculado, podendo a critério dos sistemas de ensino expandir para até 30% (trinta por cento) no ensino médio noturno”, destaca o texto.

Pais receosos, profissionais da educação preocupados

A pandemia trouxe mais do que preocupação para a médica Delaine La Gatta Carminate. Além dos plantões e do isolamento da família, ela não faz mais uma atividade que adorava fazer, acompanhar de perto as atividades escolares da filha Sofia. Em isolamento com os avós, Sofia, de apenas 11 anos, está se virando para aprender as lições de modo virtual e sem o auxílio dos pais.

“No começo era tranquilo porque eles mandavam as lições, a gente imprimia e fazia, agora com o isolamento ela fica com meus pais que não entendem nada de tecnologia. Meu marido teve que mandar um computador e ela está se virando sozinha”, explica

A psicóloga e professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, Núbia Schaper Santos,  vê com muita preocupação o avanço da disponibilidade de cursos online, principalmente para a educação infantil.

 

Para ela, neste momento, a ferramenta pode até ser uma solução paliativa, mas não é, nem de longe, a melhor forma de educar e capacitar os alunos e não pode ser vista como um substitutivo do professor presencial, principalmente nos anos básicos.

“A criança precisa estar com outras crianças para que o seu aprendizado e desenvolvimento ocorram.  É importante lembrar que é na escola que a criança se depara com a diferença e é lá também que ela aprende a disputar espaço, objetos e a se frustrar, algo que é importante para o desenvolvimento e que o professor é o mediador mais qualificado nesse processo”, afirma lembrando que além da mediação correta, a escola é o espaço ideal para o desenvolvimento dos alunos.

A psicóloga lembra ainda que em casa não é o lugar ideal para que alunos desenvolvam habilidades educacionais e pedagógicas propostas pelas escolas.   “Não podemos perder de vista que estar na escola é estar com um mediador qualificado que é o professor. O desenvolvimento dos alunos, principalmente da educação infantil, é baseado em brincar e interagir, e esse processo não pode ser feito quando ele está em casa e tem a tela como mediador. Essa mediação da tela prejudica a educação infantil porque a criança se expressa por várias linguagens e precisa do ambiente da escola e da troca”, finaliza.

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