Moradores do Quilombo Campo Grande sofrem novos ataques e resistem há mais de 40 horas; atos reforçam protestos em Minas

Os moradores do Quilombo Campo Grande, em Campo do Meio, sofreram na tarde de hoje um novo ataque. De acordo com relatos de moradores do local, a polícia militar teria ateado fogo nas áreas do acampamento. O objetivo seria retirar as famílias que resistem bravamente à reintegração de posse que já dura quase 40 horas. Até o momento, nem a Polícia Militar nem o governo de Minas se pronunciaram.

Foi também durante a tarde de hoje, que manifestantes do MST de diferentes regiões se organizaram e de forma rápida e em frente ao Palácio da Liberdade, antiga sede do Governo de Minas, fizeram um protesto contra a atitude do governador que mantém a polícia militar no local. Com faixas de “Fora Zema” e “Zema Genocida”, os integrantes do movimento afirmaram que se algo acontecer às 450 famílias que lá vivem, a culpa será da polícia e do atual governador.

Agatha Azevedo, representante do MST Metropolitano, lembra que não é por acaso que o local recebe o nome de quilombo, porque as terras já têm histórico de exploração escrava, e que o MST há 20 anos vem dando utilidade social ao terreno com produção de café orgânico, arroz, onde crianças estudam e mais de 450 famílias vivem.  

“Há 20 anos de história naquele local, história dos trabalhadores e das trabalhadoras do MST. É importante falar que só a reforma agrária pode mudar a realidade daquele local e que nós vamos resistir até o fim. Se o governador insistir em tirar a gente de lá ele vai criar um massacre”, afirma.

Desde o começo da tentativa de reintegração de posse, o deputado estadual Betão (PT) tem acompanho de perto a situação, denunciado os abusos e colocado seu mandato à disposição.

“É um absurdo o que esse governo faz com essas quase 500 famílias. Fazer uma reintegração de posse, em plena pandemia, é desumano. Por isso, o assunto já foi levado para à Comissão de Direitos Humanos para ser investigado e já ganhou notoriedade internacional. Isso não pode acontecer. O governo não pode atacar os mineiros dessa forma”, afirma Betão, cujo mandato marcou presença no ato da tarde de hoje.

Além de Belo Horizonte, pelo menos outras duas cidades registraram protestos: Itatiauçu e Governador Valadares.

Logo no começo da manhã, a polícia demoliu a Escola Popular Eduardo Galeano, destruída por um trator e informações do próprio MST davam conta de que a PM não estava deixando passar nem água nem alimentos para a população local.

A escola não foi a única a ser destruída, houve também a demolição de um barracão coletivo onde moravam três famílias que haviam sido despejadas no dia anterior.

Reintegração em plena pandemia: entenda o caso

De acordo as informações divulgadas pelo MST, o governador alega que a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social já encaminhou o pedido de suspensão à comarca de Campo Gerais, que, por sua vez, não aceitou o pedido. A informação foi divulgada pelo governador em suas redes sociais ontem.

Entretanto, até então, o oficial responsável pelo despejo informou ao MST que a ação iria continuar caso não houvesse uma ordem de suspensão de forma oficial.

Em resposta, os advogados do MST entraram com um pedido no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para reverter a ordem de despejo. Ainda sem um parecer formal, segue o impasse e as famílias continuam desalojadas.

Vale lembrar que a decisão de reintegração de posse vai contra o pactuado pelo governo Zema, que havia firmado, junto à Mesa de Diálogo, com participação da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, Comando Geral da Polícia Militar, Defensoria Pública e o Ministério Público, que não faria esse tipo de ação em plena pandemia.

Para Miguel Pereira, engenheiro ambiental e apoiador da causa, o que o governo Zema faz, além de desumano, revela também um total desconhecimento sobre a importância social da terra para as famílias e para a economia local.

“São cerca de 2 mil pessoas que hoje moram lá. São famílias que produzem em um território que antes seria de uma só família, e  agora serve para mais de 450. É importante falar também que antes era uma monocultura, mas agora tem outras formas diversificadas de plantio com a agricultura familiar, além da preservação e dos ganhos ambientais e sociais. São famílias que trabalham e geram a economia local”, acredita Miguel, que neste momento está desenvolvendo uma dissertação de mestrado em Desenvolvimento, Tecnologias e Sociedade  na UNIFEI  (Universidade Federal de Itajubá), junto ao MST, que analisa as mudanças socioprodutivas em Campo do Meio.

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