Patrimônio histórico de Juiz de Fora e grande referência de disseminação da cultura, Casa D’Itália está ameaçada

Ordem de despejo e documento de aviso sobre um leilão foram enviados aos administradores pelo Consulado da Itália em Belo Horizonte 

Casa D'italia em 1939 - foto do Márcio Arcuri

Com uma história de 8 décadas em Juiz de Fora, a Casa D’Itália, espaço de preservação da memória da imigração italiana na cidade, pode ir a leilão no dia 3 de dezembro a partir de uma decisão do Consulado da Itália em Belo Horizonte. Nesse contexto, em defesa de todo legado e das diversas atividades realizadas, a Associação Ítalo-Brasileira San Francesco di Paola, que administra o local,  não tem poupado esforços para tentar impedir que o leilão aconteça e procurou o mandato do deputado Betão para solicitar esse apoio.

Tombado desde 1985 pelo Patrimônio Histórico, o imóvel, inaugurado em 1939, conta com uma escola de língua italiana que funciona há 70 anos, um grupo folclórico nacionalmente conhecido – o Tarantolato, um curso de desenho e pintura, uma orquestra, um coral, uma escola de pizzaiolo e um time de bocha, além de locar o espaço para entidades. 

Para o presidente da Associação, Paulo José Monteiro, que foi pego de surpresa pela notificação extrajudicial que recebeu, é preciso lutar de todas as formas pela preservação do local.  “Não esperávamos por isso em hipótese alguma. O imóvel é nosso, para uso exclusivo da Associação. Foi colocado em nome do Governo Italiano para preservar as atividades oferecidas”, conta Paulo, que afirma que irá entrar com uma ação contra o despejo, previsto para o final de outubro. 

Paulo lembra ainda que as atividades são gratuitas na maioria dos cursos oferecidos e que toda a arrecadação, inclusive dos aluguéis dos espaços, é voltada para a manutenção da Casa. “Todo o dinheiro arrecadado é usado para pagamento dos funcionários, de contas de energia elétrica, água, etc. Por sermos uma associação, não temos fins lucrativos e nossa luta é para preservar não somente nossa memória como descendentes de italianos mas, também, uma referência cultural para toda Juiz de Fora”, finaliza. 

Para Betão, que já prepara um ofício destinado ao cônsul e uma representação na Comissão de Educação da Assembleia Legislativa que posteriormente será endereçada ao Ministério do Exterior em Roma, a Casa D’Itália é um patrimônio histórico não só da comunidade italiana, mas de toda Juiz de Fora. “Estamos falando de um prédio que além de oferecer atividades de relevância para a população, ainda tem esse caráter histórico e já faz parte da paisagem do centro da cidade. Eu mesmo sou filho de imigrantes italianos e posso afirmar que ajudarei nessa luta pela preservação das nossas memórias”, enfatiza.

Outro que também está em luta para preservar a Casa D’Itália é o ex-presidente da Associação, Walter Pecci Madallena, conhecido como Waltinho Madallena, que tem uma livraria situada no espaço externo da Casa. “Essa notícia do leilão teve um impacto absolutamente negativo, mexeu com a estrutura de todos nós, um surpresa muito grande”, desabafa Waltinho, que cita ainda o fato de ser uma ação colocada em plena pandemia, sem nem mesmo permitir grandes manifestações de rua.

Já para Paola Frizero, do departamento de cultura da Casa D’Itália, “trata-se de uma instituição que hoje é o centro das memórias culturais da imigração italiana da cidade, imigração esta que foi de extrema importância para o que conhecemos hoje por Juiz de Fora”.  Ela lembra ainda que o prédio já sobreviveu a diversas transformações políticas e paisagísticas da cidade e do país e hoje tem como objetivos o acesso e a democratização da cultura.

Paola diz que o local também oferece regularmente exposições fotográficas e de arte, eventos gastronômicos, de educação, cursos e palestras, e isso precisa ser mantido. “Todas essas e outras iniciativas culturais serão interrompidas com o fim da Casa D’Itália. Este leilão significa a venda da nossa história e nós precisamos do apoio de todas as pessoas que lutam em prol da Cultura”, conclui.

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