Representantes dos atingidos por barragens protestam contra acordo fechado entre a Vale e o Governo de Minas; “decisão tomada a portas fechadas e sem igualdade”

Manifestantes reclamam da falta de um representante na cerimônia e cobram cumprimento do anúncio de que haverá o pagamento de um auxílio emergencial para as famílias dos atingidos por mais 4 anos

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) foi palco do protesto protagonizado pelos representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens em Minas Gerais (MAB) que, no momento do anúncio da celebração do acordo entre a Vale e o Governo de Minas, denunciaram novamente a falta de diálogo com os atingidos, além da execução de um pagamento que será cerca 32% menor do que o esperado. Apesar do anúncio feito hoje de que o valor acertado entre as partes foi de R$ 37,68 bilhões, e que 30% dos recursos devem ser investidos em Brumadinho, o representante do Movimento dos Atingidos, Joceli Andrioli, afirmou que além de imoral, a celebração não foi feita de forma participativa. “É uma conquista porque se dependesse da Vale a gente não teria nada, mas não vamos aceitar na forma como está. Vamos entrar com uma ação de inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal, com ajuda de vários partidos políticos para tentar a anulação desse acordo”, explica.

Durante a cerimônia, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, voltou a comemorar o acordo contrariando a manifestação dos atingidos, que mais uma vez ficaram de fora da cerimônia, classificando o acordo como “inédito e o maior da história do Brasil”. “Todas as partes envolvidas participaram. Todos foram escutados em uma participação inédita em Minas Gerais”, disse sob protestos dos manifestantes, que negaram a integração entre as partes.

Para Joceli, inédita é a forma como a Vale consegue agir em Minas Gerais desde o crime em Mariana, com injustiça e prejudicando as famílias das vítimas.

“Inédita é a forma como a mineradora conseguiu garantir a segurança jurídica e preservar os acionistas, e como o povo das duas cidades (Mariana e Brumadinho), ainda tem que lutar pela reparação devida desse crime”, finalizou.

Quem também lamenta a falta de igualdade é o integrante e representante do movimento dos atingidos, José Geraldo. “Não é o governador que tem que decidir quem vai receber e o quanto de dinheiro será dividido, não. Em Mariana, a falta de Justiça fez com que nenhum morador fosse reassentado em suas novas casas. Agora somos obrigados a aceitar um acordo bem abaixo do que merecemos. Isso é um absurdo para quem já está sofrendo tanto.

Para Betão, que logo após a tragédia em Brumadinho foi à cidade manifestar apoio às famílias das vítimas e que em 2020 também se juntou aos protestos pela Reestatização da Vale no município, esse acordo não representa justiça às vítimas. “Acompanhamos os protestos dos atingidos, muitas vezes impedidos de participarem da negociação. Não há nada o que comemorar em um acordo que não beneficiou os principais atingidos, que são os moradores e as famílias das vítimas”, explica Betão que assinou junto aos demais deputados da ALMG um pedido de CPI para investigar os termos do acordo entre a Vale e o Governo.

Betão (deputado estadual PT/MG)

Entenda o assunto

Há mais de quatro meses acontecem reuniões para a definição do acordo entre a Vale e o governo de Minas para reparar o crime causado pela mineradora com o rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, que levou à 270 mortes e 11 desaparecidos.

Inicialmente, o Estado e as instituições de Justiça tinham solicitado R$ 54,7 bilhões, sendo R$ 26,7 bilhões referentes a danos materiais e R$ 28 bilhões por danos morais coletivos. A primeira proposta da Vale foi de R$ 16,45 bilhões.

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